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Sinais / Tribunais e instituições

André Ventura e o Chega: Chega escolhe para cabeça de lista no Porto um militar da GNR condenado pela morte de um rapaz de 13 anos

Fez · Tribunais e instituições · 30.06.2019

Chega escolhe para cabeça de lista no Porto um militar da GNR condenado pela morte de um rapaz de 13 anos
André Ventura e o Chega

Convenção Nacional fundadora do Chega, a 29 e 30 de junho de 2019, em Algés (Oeiras). No segundo dia, uma fonte do partido confirmou à Lusa que o militar da GNR Hugo Ernano seria o primeiro candidato no círculo do Porto nas legislativas de 6 de outubro de 2019; segundo a RTP, foi André Ventura quem o anunciou. Em 2008, durante uma perseguição policial, um disparo de Ernano atingiu mortalmente um rapaz de 13 anos. Em 2014, o Tribunal da Relação de Lisboa condenou-o por homicídio por negligência grosseira a quatro anos de prisão, com execução suspensa.

O que aconteceu: Na lista oficial, publicada pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna, «Hugo Alexandre da Silva Ernano» é o primeiro dos 40 candidatos efetivos do Chega no círculo do Porto. Não foi eleito. No Porto, o Chega teve 5704 votos (0,63 % dos votos validamente expressos) e nenhum mandato; no país, elegeu um deputado, André Ventura, por Lisboa (Mapa Oficial n.º 9-A/2019 da CNE).

Twitter (hoje X)André Ventura @AndreCVentura

É um orgulho ter o militar Hugo Ernano nas nossas hostes! […] O erro aqui não é do polícia, é do bandido!

(hora de Lisboa) · Ver a publicação (noutro site)O corte omite pormenores sobre a vítima, que era menor. A publicação tem também uma ligação, que não seguimos.

Segundo a Lusa (30/06/2019), «O militar da GNR Hugo Ernano será cabeça de lista do partido Chega no Porto, nas eleições legislativas de outubro, enquanto o líder do partido André Ventura encabeça a lista em Lisboa, confirmou à Lusa, este domingo, fonte daquela força partidária». No mesmo dia, a RTP noticiou que, na convenção, «André Ventura anunciou que Hugo Ernano […] vai ser o cabeça de lista pelo Porto». Na véspera, Ernano tinha discursado na convenção; segundo o Notícias ao Minuto, explicou por que razão aceitou o convite de André Ventura e disse: «Dignidade humana». Concorreu como independente nas listas do Chega (Sábado; Notícias ao Minuto).

A condenação. Os factos são de 2008, anteriores à fundação do Chega. O acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 3 de dezembro de 2014 (processo 250/08.1GILRS.L1.S1) reproduz as decisões anteriores:

  • a 24 de outubro de 2013, a 2.ª Vara de Competência Mista de Loures condenou o arguido por «um crime de homicídio», previsto no artigo 131.º do Código Penal, a nove anos de prisão;
  • a 26 de junho de 2014, o Tribunal da Relação de Lisboa deu parcial provimento ao recurso do arguido e condenou-o «pela prática em autoria material de um crime de homicídio por negligência, sob a forma de negligência grosseira, previsto e punido pelo art. 137.º n.º 2 do Código Penal na pena de 4 (quatro) anos de prisão», com a execução suspensa por quatro anos;
  • o Supremo apreciou só o recurso dos demandantes civis sobre a indemnização, que fixou em 55 000 euros. O sumário descreve o arguido como «militar da GNR condenado pela prática de um crime de homicídio por negligência grosseira, que atingiu o menor com um projéctil disparado por uma arma de fogo, causando-lhe a morte».

O acórdão é anonimizado. Que o arguido é Hugo Ernano resulta das notícias sobre as mesmas decisões: segundo a Lusa (10/12/2014), a decisão do Supremo foi «confirmada hoje à agência Lusa pelo militar da GNR, Hugo Ernano, que se mostrou “indignado com a decisão”». A pena suspensa foi fixada pela Relação, e não pelo Supremo, como escreveu a Lusa em 2019. A defesa recorreu também para o Tribunal Constitucional. Segundo o DN (10/03/2016), o Tribunal Constitucional «nada alterou»; o Polígrafo (15/12/2020) escreve que «A pena do militar manteve-se». Não encontrámos a decisão do Tribunal Constitucional.

Em março de 2016, num processo disciplinar pelos mesmos factos, foi-lhe aplicada uma suspensão agravada de 240 dias (DN; Correio da Manhã).

O processo disciplinar de 2019. No início de julho de 2019, Ernano era alvo de um novo processo disciplinar da GNR. A Sábado (06/07/2019) escreveu que era «por ter aceitado ser candidato independente, no Porto, às Legislativas, nas listas do partido Chega». Segundo o Notícias ao Minuto (16/07/2019), o Comando-Geral da GNR não negou a abertura do processo, e a origem podia estar na intervenção de Ernano na convenção antes de a licença especial para se candidatar produzir efeitos; o advogado disse ao jornal: «O militar Hugo Ernano foi constituído arguido, mas não foi dado conhecimento dos factos disciplinarmente relevantes». A direção do Chega decidiu manter o apoio ao candidato (ver «Resposta do visado», abaixo). Não encontrámos o desfecho deste processo.

Numa entrevista ao Público publicada a 28 de outubro de 2019, perguntaram a Ventura se a escolha não o chocava («Isso não o choca?»). Ventura descreveu as circunstâncias do caso, com pormenores sobre a vítima e a família que este arquivo não reproduz, e acrescentou: «Veja a onda de solidariedade a nível nacional que a condenação em primeira instância gerou, uma decisão que o Supremo veio depois corrigir, suspendendo a pena.» A pena suspensa foi fixada pela Relação de Lisboa, e não pelo Supremo (ver acima).

A 16 de abril de 2021, Ventura escreveu no Twitter (hoje X): «É um orgulho ter o militar Hugo Ernano nas nossas hostes! […] O erro aqui não é do polícia, é do bandido!» Na frase omitida, Ventura descreve a condenação e as circunstâncias do caso, com pormenores sobre a vítima que este arquivo não reproduz.

A condenação é anterior à fundação do Chega e não entra como caso: esta ficha documenta a escolha do partido. Não identificamos a vítima nem a família.

Fontes: GNR que matou jovem em perseguição é cabeça de lista do Chega no Porto (noutro site) (Lusa (via Renascença)), 30.06.2019 · Lusa; Militar da GNR condenado por homicídio é candidato do Chega (noutro site) (RTP), 30.06.2019; Militar da GNR Hugo Ernano é o candidato do Chega para o Porto (noutro site) (Notícias ao Minuto), 30.06.2019; Legislativas 2019, candidatos do CH no círculo do Porto (noutro site) (Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna), 06.10.2019; Hugo Ernano alvo de processo disciplinar da GNR por causa do Chega (noutro site) (Sábado), 06.07.2019; Hugo Ernano, o candidato às legislativas alvo de um processo disciplinar (noutro site) (Notícias ao Minuto), 16.07.2019; Mapa Oficial n.º 9-A/2019, DR, 1.ª série, n.º 203, 22/10/2019 (documento, noutro site) (Comissão Nacional de Eleições (Diário da República)), 22.10.2019; Acórdão de 03/12/2014, processo 250/08.1GILRS.L1.S1 (3.ª Secção) (Supremo Tribunal de Justiça), 03.12.2014 · O acórdão, embora anonimizado, contém dados que permitem identificar a família da vítima, que era menor; não ligamos.; Supremo mantém pena a GNR que matou jovem e aumenta indemnização (noutro site) (Lusa (via DN)), 10.12.2014 · Lusa; Hugo Ernano condenado a suspensão por oito meses na GNR (noutro site) (DN), 10.03.2016; GNR suspenso por oito meses (noutro site) (Correio da Manhã), 10.03.2016; Militar da GNR foi condenado a nove anos de prisão enquanto “ladrão” só apanhou dois anos? (Polígrafo), 15.12.2020 · A peça identifica a vítima e a família; não ligamos.; Publicação de 16/04/2021 (noutro site) (André Ventura (X, antigo Twitter)), 16.04.2021; André Ventura: «Não vai haver extremo nenhum em Portugal graças ao Chega» (noutro site) (Público), 28.10.2019

Resposta do visado

Depois de a GNR abrir um processo disciplinar a Hugo Ernano, André Ventura disse ao Notícias ao Minuto: «Decidimos duas coisas: por um lado, manter o apoio ao candidato independente, Hugo Ernano, e, por outro, criar um fundo de apoio económico e jurídico caso seja afastado ou suspenso como consequência do processo disciplinar». Segundo o jornal, Ventura garantiu também que ia pedir uma «reunião de urgência» ao Ministério da Administração Interna. (16.07.2019)

Sinal

Tipo
Fez
Tema
Tribunais e instituições
Data
30.06.2019
Última verificação
14.10.2026

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